Massas e queijos

 Pouca coisa bate uma pizza gelada de manhã. Talvez uma quiche, que, tecnicamente, é quase uma pizza, mais recheada e suculenta. Era o que estava na minha cabeça, indo e voltando, quando levantei da cama com uma cria no colo e a outra, que tinha tido uma crise de tosse antes das seis da manhã, me esperava na sala de televisão, enroscada numa colcha, deitada no sofá.

A contar de hoje, aos quarenta e seis anos, eu tinha aproximadamente trinta e dois anos de dietas, in and out. Meu último filho está com três meses e eu estou com oitenta e poucos quilos. 

Pois é. 

Já cheguei a desistir de perseguir o corpo ideal. Já cheguei a pensar que 63 ou 64 quilos nunca virão para mim (a não ser que se somem ao que eu já tenho). Mas isso é só a compulsão falando. A parte dos meus circuitos que aprendeu a valorizar a descarga de dopamina nas mordidas ao longo da vida. Talvez até antes de eu começar a curtir a vida. 

É que essa coisa da compulsão tem um esqueleto genético que ninguém vê ainda. Alguma linha de programação que foi instalada ali, vinda de um dos pares que compõe o ovinho ainda na barriga da mãe. Ele fica silencioso, adormecido, como se estivesse inativo. Até que se ativa. 

E depois que ele se ativa, ele não desliga nunca. É uma perturbação imensa, uma queda de braço com a razão, que nem Deus para explicar!

As pessoas que não têm essa programação não entendem como alguém pode se manter gordo sem querer. Acham que é falta de vontade, safadeza ou só preguiça mesmo. Alguém que tem a programação e venceu a queda de braço, entende que precisa se manter vigilante para sempre continuar vencendo _ o confronto nunca termina de verdade: a programação da compulsão fica tentando vencer sempre, mesmo nos momentos em que está fraca e perde para a razão. 

Por isso a razão precisa estar bem treinada. E precisa de backup, claro!

Um backup simples (porém terrível) é a privação forçada. Quando não se têm recursos para comer. Daí não tem jeito... o corpo aprende a viver sem (até que se mude o cenário). Um outro backup, mais complexo, mas que deve funcionar da melhor maneira possível é a diminuição da força da compulsão através do enriquecimento de outros estímulos e fatores que, quando enfraquecidos, levam à compulsão.

O que isso quer dizer?

Bem. 

Quando a compulsão alimentar é um foco muito forte, não comer tudo que se quer o tempo todo é um tormento diário. Quando a compulsão alimentar divide espaço com outras tarefas, outros focos (e até outras compulsões), fica mais fácil lidar com ela. Pois bem. Dito isso, o importante é que esses outros focos sejam prazerosos: assim a mente vai querer se alimentar deles, em vez de se alimentar de comida de verdade. 

Estou tentando. Estou tentando.

O problema é que estou sempre tentando...

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