A roupa apertada

Todas as roupas estavam apertadas. 

Até as G da loja. 

Algumas, nem fechavam.

Foi assim que minha tarde de segunda-feira começou: procurando uma blusa bonita pois eu iria dar uma palestra na quarta-feira e gostaria de ir arrumada, nova, bacana.

Pois é. Justamente o vestido dos meus sonhos não fechou. E o que estava em segundo lugar me fez ficar parecendo um galão de água com capa costurada pela vovó. Que drama.

Saí da loja pensando em qual roupa velha eu usaria para a palestra. É lógico que eu não estava assim tão mal, afinal de contas, pois tinha outras coisas que poderia usar e que funcionariam, claro.

Usei uma calça jeans e uma blusa de linho azul, bem soltinha. E tênis. Funcionou. Mas não fiquei do jeito que imaginei.

Não fiquei do jeito que imaginei...estou repetindo essa frase na minha cabeça e percebendo que não estou do jeito que imagino há tempo, mas não muito tempo: há quatro anos eu estava com o corpo dos sonhos. Dos meus sonhos. 

Estava comendo salada e proteína...e salada e proteína... e uma banana da terra cozida, de vez em quando. Estava magra. Estava linda. 

Onde foi que eu tropecei, que, quando percebi, acordei com quase vinte quilos a mais mesmo? Não sei...

Tropecei na gravidez... e no aleitamento... e depois desses dois, tropecei no próprio tropeço... e sigo tropeçando, qual fosse incapaz de parar de catar cavaco e me levantar.

O ciclo começou nas sextas à noite com um "ah, só hoje, porque eu mereço"... e quando entrei na gravidez, a periodicidade se tornou "todos os dias, porque eu estou grávida e mereço". Finalmente, na fase de aleitamento (onde estou até hoje), o ciclo se consolidou para "Ah, só agora, porque vou produzir bastante leite e estou cansada e preciso ter energia pra passar as madrugadas acordada".

Hoje, o ciclo está no "vou me dar um pão de queijo agora, porque essa noite foi horrível, eu não tomei café da manhã, sei que vou ter de chegar em casa e lavar uniforme das meninas na mão, limpar a pia da cozinha sozinha, varrer tudo sozinha, cozinhar o jantar, dar peito e ir deitar exausta".

Mas a verdade é que essa coisa de se dar comida de presente só porque a gente pode, acaba azeitando uma máquina compulsória muito perigosa. E eu tenho esse mecanismo extremamente sensível em mim, o da compulsão (ou compulsões).

 Minha baixa tolerância à frustração faz com que eu creia ser merecedora de benesses que não existem. Como se eu não pudesse nunca passar vontade, fome, ou raiva.

Eu entro numa farmácia e tenho vontade de comprar tudo. Eu entro no supermercado, idem. Também na padaria, na papelaria, na sorveteria. Minhas compulsões tem a ver com alimentação e compras, principalmente. Como se eu tivesse de acumular muitas coisas, face ao terror quotidiano que é minha vida (e ela está absurdamente longe de ser  terrível assim).

Relendo esse último parágrafo, percebo que talvz eu seja uma bebê chorona. Uma princesinha mimada, que não aprendeu ainda a ouvir nãos e que se revolta contra as vicissitudes através de uma revanche ridícula: a de se "presentear" com comida cada vez que sente que foi injustiçada de alguma maneira (interpretativa).

Meu Deus, que bebezão! Que vergonha! Uma mulher dessa idade, fazendo isso?


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