O terceiro dia e a desistência iminente
É o melhor trabalho do mundo, em parte porque me permite sentir útil, em parte porque, enquanto eu trabalho no trabalho do outro, não me dou o trabalho de trabalhar no meu. Convenientemente, diga-se de passagem.
Trabalhar minha própria compulsão dá pano para manga. E eu só gosto do outro tipo de manga. Enfim.
Ontem à noite eu quis deixar tudo para lá, já no segundo dia. Ora, tenho uma família bacana, um marido que me ama, as filhas que sempre quis... E nenhum deles nunca expressou insatisfação com meu corpo. Eu não tenho medo do meu marido sair por aí se encantando com outras mulheres por conta de seus corpos: ele é melhor do que isso e jamais venderia a própria paz para entrar numa espiral de sujeira dessas.
Então, olhando por esse lado, eu quase me convenci de que não precisava emagrecer.
Quase.
Ainda bem.
Chegando no nosso quarto, sentei-me à cama que dá de frente para um espelho imenso, de corpo inteiro. Foi dolorido. As dobras deformadas pendiam para os lados, para frente, tampando minhas partes íntimas. Respirei fundo. Não era sobre meu marido. Muito menos seria sobre minhas filhas. Aquilo ali era sobre mim. Era sobre um resgate que só eu poderia protagonizar. E era agonizante perceber onde me permiti chegar. Mais do que triste, eu senti vergonha de me olhar. Eu percebi que havia séculos não tirava uma foto de corpo inteiro e vivia fugindo de que me fotografassem.
Eu comi demais. Por tempo demais.
Eu ignorei o fato de o prazer de comer ser passageiro, mas as consequências, não. Eu não planejei. Deixei para lidar com as consequências depois. E, de quilo em quilo, de descuido em descuido, de permissão em permissão...elas chegaram; as consequências. E seu peso estava se somando ao meu como uma sujeira que não se lavava.
Mais um dia, repeti para mim. Mais um dia.
E hoje, no terceiro, faço minha faxina mental e espero o quarto. Que puxará o quinto, que puxará o sexto...
Eu sei que não vou acordar e me perceber magra. O emagrecimento é um processo e um corpo magro não é o resultado dele, mas a consequência das minhas escolhas diárias.
Vai ter privação, sim. Vai ter reeducação, sim. Vai ter desintoxicação, sim. E vai doer, também, alguns dias.
Mas vai valer a pena. Só de sentar e refletir sobre mim mesma, coisa que eu não fazia há anos, já está valendo a pena.

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