O sono que precede o outro sono
Há duas semanas não consigo dormir por conta de uma tosse terrível que me assola.
Antes disso, não conseguia dormir bem por conta da minha filha de dois anos, que ainda não descobriu o caminho do próprio travesseiro, entrecortando a noite para mamar e se aconchegar em mim.
O cansaço é muito, mas eu aguento.
Eu sempre aguento.
E talvez seja esse aguentar que não me esteja fazendo assim tão bem mais.
Enquanto as meninas estão na escola, revezo meus horários de atendimento com devolutivas, introspecção e planos para as próximas sessões. Tudo isso atravessado por tosse, sono, dificuldade em respirar e um desânimo profundo.
Eu quero emagrecer e voltar a fazer exercícios, mas isso me parece um mundo paralelo. Quero descansar, tomar um chá gelado com minhas amigas, passear de mãos dadas com minha filha mais velha sem pressa, ler um livro tranquilamente, adormecer no sábado depois do café da manhã, lavar meu carro no quintal, eu mesma... Quero voltar a fazer essas pequenas coisas que fazem a gente sentir que pertence a algum lugar... Mas tudo parece muito, muito difícil hoje.
Sinto-me como se a vida estivesse em suspenso. Como se eu corresse como os ponteiros do relógio, de um canto ao outro, sem entender o motivo do caminho. É isso.
Olho para meu marido e ele está distante. Quero abraça-lo. Quero aproveitar nossa juventude tardia ainda. Mas seus passos são ecos distantes. Eu estou sem mim em mim e não consigo reconhecer as sutilezas de nós dois nos breves momentos em que estamos juntos sem o manto da noite.
Preciso descansar. Preciso repensar a toada.
Preciso voltar a viver com saúde e com tempo. O que será que me falta?

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