Engolindo um tapa de cada vez
Essa é a minha tendência e a minha vida. E não são coisas que percebo em mim apenas em relação à alimentação. É em relação a tudo o mais. Todo o resto. Desde que me recordo.
Eu tenho uma facilidade imensa com memorizar as coisas e compreender conteúdos. Talvez, por essa faceta, nunca me dediquei demasiado aos estudos na escola. Eu, em estando na aula, adquiria ali o que precisava. Chegava em casa, fazia as tarefas mais por vaidade de dizer que fiz ou medo de ser repreendida que por reconhecer a importância do reforço.
E fui assim em muitas escolas. A normal (que terminei sem tropeços), a de língua inglesa (uma facilidade nata), o judô (eu era kamikaze nas competições e, por isso, levava quase tudo...poderia ter levado mais se tivesse levado a sério o esporte), a faculdade. A primeira pós (até a desistência, por crer aquilo tudo muito sacal e desnecessário), a segunda pós. A outra faculdade (que larguei também, antes do fim). A terceira, que estou cursando.
Enfim.
Sinto que funciono muito bem no sistema da recompensa e da punição, mas não consigo manter a ordem dos fatores na cronologia correta do que devem ser os fatos.
Na natureza, primeiro deve haver o esforço para que a recompensa o siga, certo? A punição, por sua vez, é aquele amargo que fica ali, esperando atrás da porta, quando o esforço não foi suficiente ou quando, mal empregado, não surtiu o efeito desejado. Pois então... eu me encontro sempre me dando primeiro a recompensa, antes mesmo de realizar o esforço. Penso que o mínimo que faço já é um esforço imenso... Muitas vezes penso, confessso, que por ser muito maior que a soma das minhas partes, composta por universos indizíveis, ondas, vibrações quânticas e outras vidas, não devo prestar contas à minha vida terrena e não deveria me submeter às leis dos homens. Como se eu pairasse acima do funcionamento do corpo, como se eu tivesse a força necessária para me separar da materialidade científica e das coisas bioquímicas que compoem meu corpo e aprisionam esse ser perfeito que eu gostaria de ser.
Na verdade, lá no fundo do meu âmago, na porta do meu inferno pessoal, um lugar onde não gosto de visitar com muita frequência, eu sei que deveria ser mais humilde e me submeter às leis dos homens também. Sei que há um bocado de coisas necessárias neste mundo que devem ser feitas e observadas para que meu espírito se engrandeça, se empureça (nem sei se existe essa palavra), se livre das carnes e do próprio mundo e siga para um plano mais elevado, mais delgado, mais leve.
É só na maestria das pequenas coisas mundanas que o espírito se livra de seu peso, de suas limitações e artificialidades.
Há que se conhecer os livros para se rejeitar os livros. Há que se submeter às dificuldades para nos percebermos dentro do nosso raio de ação possível.
E nisso, estou ainda criança. Não sei quase nada. Evito me meter no que me dificulta e escondo-me daquilo que ameaça meus limites infantilmente alimentados por mim ao longo de toda uma vida.
Fazer dieta não é fazer dieta.
Fazer dieta é fazer terapia. A reorganização do equilíbrio corporal é mera consequência.


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