Uma percepção sobre a compulsão
As coisas só vão melhorar lá pela segunda semana, quando a balança dá mostras de que o esforço está sendo recompensado. Até lá, a resignação é a rainha desta casa de carne, osso e desejo de voltar às forras com a não-restrição.
Talvez essa questão da compulsão alimentar não seja sobre alimentos, mas, sim, sobre compulsão.
Compulsão: atividade repetitiva, excessiva e um exercício mental sem sentido que uma pessoa realiza na tentativa de evitar aflição ou preocupação. Trata-se de um comportamento destinado a reduzir o desconforto psíquico devido a fatores como, por exemplo, a depressão ou ansiedade. Do latim, compulsio; que compele, que obriga.
Faz sentido.
Esse mecanismo que me compele à acumulação, dizem os evolucionistas, pode ter raízes em estratégias evolutivas de sobrevivência em períodos de escassez. Também faz sentido. O que não faz sentido ainda é eu não ter conseguido, até hoje, regular uma estratégia de contra-ataque eficaz, que impeça esse mecanismo de dominar grande parte da minha vida.
Tudo que eu quero, eu quero muito. E percebo em mim uma dificuldade imensa em ser seletiva e realizar edições de modo a organizar e a diminuir as tranqueiras que quero.
Não, eu não sou daquelas acumuladoras de programa de televisão estadunidense, de forma alguma. Minha casa, meu consultório e meu carro carregam, contudo, uma certa marca de desorganização e até um bocado de falta de zelo nos detalhes. Eu sinto uma atração imensa por categorizar as coisas e colocá-las em seus lugares, mas, ao mesmo tempo, tudo que me atrai nessa categorização inicial se perde na falta de energia para dar a manutenção do que está organizado. Em outras palavras, eu organizo tudinho, até que, depois de um tempo, nada esteja organizado mais.
Eu chamo meu fenômeno de organização de superfície. Foi um termo que criei para dar significado para o que enxergo, não só em mim, mas também (e definitivamente) em mim: onde os olhos tocam (as superfícies), há harmonia. Onde os olhos não vêem, esconde-se um pouco de caos. Acho que eu como assim também.
Na frente das pessoas, a etiqueta me obriga a editar meu automatismo alimentar. Etiqueta, repressão ou constrangimento social, o que vier primeiro. Quando estou com pessoas que representam algo na hierarquia, eu me alimento o suficiente, comedidamente, descontraidamente. Quando não há pessoas ou estou em companhias que me fazem sentir livre e festeira (aqueles que eu não preciso impressionar), eu como infinitamente.
Entre as minhas lembranças (sou afeita às nostalgias e ao passado poético), estão as festas de aniversário lá de casa. Sempre havia comida para o triplo de convidados. No dia seguinte, a minha alegria era abrir a geladeira e encontrar o pote imenso de salgadinhos frios que estaria lá, à espera. Eu comia aquilo com uma alegria invejável. Comia até acabar. E depois, os docinhos. Os bolos. E se tivesse um refri pra acompanhar (guaraná sempre foi meu preferido), eu mandava para dentro também.
Em uma das minhas memórias de cozinha, lembro que minha mãe tinha mania de fazer patê de fígado de galinha _ algo que eu amava. Eram potes e potes, no freezer, estocados, mais os potes da geladeira. Eu comia aquilo com pão, mas a camada de patê era tão grossa que podia-se dizer que eu passava o pão no patê e não o contrário. Da mesma maneira, quando o almoço era quibe frito ou macarrão com molho de tomate, eu já chegava com uma gaveta aberta, funda e preparada no estômago, para comer até raspar o fundo das panelas. Isso já antes dos dez anos. E quando cresci, era ainda pior.
Esse mecanismo de pegar o máximo que eu podia daquilo que estivesse disponível, se repetiu ao longo da minha vida em várias outras áreas. Eu gosto de ir ao mercado, à padaria, à papelaria. Gosto de encher o carrinho de compras virtual (mesmo que não conclua a transação). Gosto de ter as atenções para mim. Gosto de acumular livros, creminhos, perfumes, roupas, músicas. A ideia de passar um dia sem comprar nada, nem um pão de queijo, me incomoda e me traz uma sensação de coceira tremenda. É a compulsão chamando. Eu percebo. E eu sucumbi tantas vezes quanto alguém poderia sucumbir.
Talvez por isso as dietas do Atkins e do Dukan foram tão bem vindas na minha vida. Porque, apesar da restrição de alguns tipos de alimentos, não havia restrição de quantidades: comer o dia inteiro me dava a sensação de que eu estava sem a coleira típica das dietas regulares e isso me tranquilizava, porque falava diretamente com a minha compulsão e a acalmava, porque a garantia certa liberdade.
Hoje, imagino que minha grande luta vem daqui. Da percepção dessa compulsão. Do entendimento de sua existência, das pazes com o fato de que ela sempre estará ali, instalada como um programa raiz no meu hard drive. Agora preciso entender como tratar com ela. Como trabalharmos juntas para que consigamos emagrecer, manter o peso magro e não sucumbirmos uma à outra.


Comentários
Enviar um comentário