Quarta-feira de cinzas

Ontem eu flertei com a obesidade. 

Quis acolhê-la. Ressignificá-la.

Ontem quase me convenci de que estava tudo bem estar como eu estava. Como eu estou. Analisando minha vida panoramicamente _ e vigiando a questão da minha organização de superfície, o incômodo em relação àquilo que venho sendo a anos fica cada vez mais evidente _ e cada vez mais incômodo.

Minha tolerância à frustração é, de fato, intolerante. Minhas habilidades em manter nos trilhos a rotina e a constância são o desafio mestre, que enfrento todos os dias e nunca, ao mesmo tempo.

Eu começo uma dieta na segunda e páro na quarta ou na quinta, se bobear. Eu começo um propósito na quarta e já desisto uma semana e meia depois, porque não tenho paciência para andar no passo do processo. Quero para ontem. Para antes de ontem. E não quero a dor de estar no meio do caminho.

Toda vez que um cliente chega com uma demanda parecida, eu sou bastante empática. Entendo completamente as recaídas, as dores, as promessas vazias que eles fazem para si mesmos diuturnamente. E quando eles caem, quando se frustram, eu entendo a frustração porque também ali já estive muitas vezes. Milhares de vezes. Sentamos juntos, em algumas situações, ali no caminho do processo, entre a linha de partida e o quilômetro um, para chorarmos a recaída. Elas são muitas. 

Recair é sucumbir ao nosso abismo interno. É deixar o subconsciente estar acima da razão, acima do controle. Recaímos quando entregamos o presente metafórico (ou não) para aquela figura assustada que mora dentro de nós, e que grita que quer agora. Ela está lá, ardilosamente posicionada entre o medo da solidão e a autocomiseração. Entre a pena e a miséria. E, porque somos ela, sentimos por ela. Sentimos por nós. 

O mundo já é doloroso demais. Caótico demais. Hostil, até. E em face a tanta hostilidade, desejamos que os outros sejam caridosos conosco. Caridosos, carinhosos e provedores. Desejamos que o outro remova de nós _ não tanto a dor em si, mas o medo da possibilidade da dor. 

Tudo isso nos faz mais fracos. Temer o imaginário. Temer a privação. Não sermos amados. Passarmos uma existência inteira às margens do palco, sem nunca subirmos nele. Então, a cada possibilidade de ganharmos uma recompensa, mesmo que seja fútil, mesmo que seja infantil _ ou mesmo que seja comida, no meu caso _ desembestamos para ela como moscas no lixo. 

E deixamos para chorar depois.


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