Oitenta para cento e sessenta e três
Foi isso que a balança acusou da última vez.Oitenta quilos para cento e sessenta e três centímetros. Sim, eu meço 1,63m. E esse peso está distribuído no meu corpo como se eu fosse uma daquelas pedras que ficam na ponta da praia, jogadas, onde as crianças gostam de subir e de onde cavucam conchinhas, lagartos e tampinhas velhas de refrigerante.
É assim que me sinto.
Já fiz todas as dietas existentes, mais de uma vez, ao longo dos meus quase quarenta e quatro anos. Já escrevi outros blogs também, que minguaram no primeiro mês, como tentativa de controle e ânimo para seguir em frente. Paciência. Ao longo dessa jornada, já devo ter emagrecido uns 540kg, mas acabei engordando outros 560kg e terminei aqui. Mãe de duas, psicóloga (!), casada e obesa.
E ser obesa me incomoda.
A maior confissão é a seguinte: eu sofro de compulsão alimentar. Não, espera aí. Eu sofrer de compulsão alimentar não é bem uma boa frase para uma psicóloga. Vou tentar novamente. Eu escolho comer para me presentear frente às frustrações que eu tenho (ou que acho que tenho). Uma espécie de recompensa para segurar minha onda de ser mãe, esposa, dona de casa, profissional, doméstica, cozinheira e ainda por cima de não me achar muito boa em nada disso.Eu não desconto na comida. Eu celebro na comida. Comer, para mim, é festa, é fuga, é colo, é nutrição, é prazer. Tudo ao mesmo tempo. Não tem nada que eu não coma e há muitas coisas que amo comer e fazer.
Normalmente, talvez pela minha criação, eu até prefiro as coisas saudáveis. Arroz integral, feijão, saladas, legumes cozidos, carne de todo tipo, tomates frescos picadinhos, frutas, iogurte. Amo tudo isso. A quantidade do que ingiro... bom... a quantidade talvez seja um problema. Se eu me sento à mesa para comer, sem distrações, eu faço da comida a minha distração e meu deleite. E não páro enquanto o prato não estiver limpo. E as travessas. E as migalhas sobre a toalha da mesa. Eu não páro.
É sobre isso.
Certa vez fiz um teste genético que apontava que eu tinha uma programação de satisfação pós-refeição meio estragada. Como se eu precisasse de mais tempo para me sentir saciada que a média das pessoas. Mais tempo ou mais comida, não me recordo bem. E isso colocou a minha vida numa caixinha muito confortável; como se o "diagnóstico" fosse aquilo que eu precisava para justificar minha fome desenfreada.
Mas nem sempre foi assim. Essa janela desembestada de alimentação só se abre quando eu me entrego aos prazeres dos carboidratos. Se eu faço alguma dieta de restrição de carboidratos, a fome passa e fica apenas a nostagia das boas comidas, massas bonitas, pães crocantes e doces untosos. Já fiz várias vezes e deu certo. Até que eu voltava para o meu vício, como um drogadito volta ao cachimbo de crack, ao pó, à cena do crime. No começo, eu fazia uma "refeição do lixo", que virava um "dia do lixo", que virava um fim de semana do lixo e ia se abrindo, estendendo, até retornar à semana inteira da minha vida de lixo.
E o peso vinha, alegremente, preencher minhas solitárias células adiposas, até que elas chegassem ao limite. E, como adipócitos não têm limites, elas se dividiam e iam melhorando seu desempenho, desde os meus braços de biscoiteira até o mocotó de tia da fazenda, torneando cada músculo e trazendo a rechonchudez para dentro das minhas roupas mais largas.
Enfim.
Ontem eu recebi a foto que me doeu imensamente. E é sobre ela esse novo recomeço. É sobre imagem, não saúde. Eu não quero ser essa gorda da foto. Eu quero ser magra, porque eu acho a esbelteza mais harmônica que a redondice. Vamos começar tudo de novo. Nutricionista. Vontade. Prebióticos. Reza. Quebranto. Tambor.
Dizem que um gordo nunca deixa de ser gordo fazendo dieta. Dizem que o emagrecimento começa no nosso sistema límbico, aprendendo a gerenciar as emoções e dando nomes aos bois. Pois bem. É lá que a gente vai explorar a partir de agora.


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