Eu, a servidão emocional e o pacto das indulgências

Eu tenho precisado da autorização do outro para viver bem.

Peço autorização para ser feliz. Para ser bem sucedida. Para ser bonita.

Sinto-me como se estivesse no fim de uma fila comprida, na burocracia da convivência humana, esperando meus carimbos para atuar no mundo.

E isso não deve ter vindo da infância...

É pesado e interessante analisar minhas dinâmicas de relacionamento e encontros pessoais. A forma como me movimento nas conversas, a maneira de sorrir, de abraçar, de me expor, de me comprometer. 

Eu quero sempre fazer algo para alguém. Para garantir que gostem de mim. Para garantir que valho a pena e que vejam que eu valho a pena. 

E quando o retorno não é dos melhores, eu sofro... tento mais, tento mais forte, tento mais alto. Não aceito um não como resposta. Não gosto das costas das pessoas. E me enfraqueço quando me dizem que não gostaram de mim. Sinto dor, sinto ódio, sinto medo. 

Comer me leva para o lado bom da vida, na medida em que massageia meu ego, ilumina minha experiência, garante algum alento a essa cabeça que só pensa que se não agradar, ficará esquecida, sozinha, abandonada. 

Qual Chronos, como para matar o tempo. Para matar a impetuosidade do tempo, dos afazeres que não quero fazer, mas precisam ser feitos. Para aturar os desafios que não queria desafiar, mas que precisam ser realizados. Para carregar nas costas o chão sujo, a pilha de roupas acumuladas para lavar, o murundum de desordem que meu marido insiste em espalhar pela sala, tomando a mesa de jantar, o buffet, as cadeiras, o chão, o não-desmame de minha mais nova, que não sabe ainda dormir e me usa de chupeta grande parte da noite, a insatisfação da minha adolescente, que, por estar na adolescência, naturalmente se dói de tudo e com tudo.

E, se faço o que tem de ser feito, e como... Concluo que não há injustiças na operação. Mas há. 

Eu estou me matando e não deveria. Estou triste, automatizadamente triste. E pensar sobre minha vida me tem trazido não só angústia, mas a sensação de túnel sem luz no fim...

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